
Acordamos lentamente com o som do alarme tocando descontroladamente. Temos a sensação de não nos pertencermos e de ainda estarmos em estado inerte, presentes no inconsciente.
Primeiro, os olhos se abrem, você toma consciência de si, desliga o alarme e percebe que é real.
Segundo, espera que o corpo reaja, erguer-se lentamente e, então, volta, porque o vento frio faz querer permanecer inerte, em estado de sonolência.
Terceiro, o dia chama. O sol começa a raiar pelas frestas das grandes cortinas pretas, e os compromissos se aproximam. Não há ninguém para chamar você, além da própria consciência, que o empurra para o dia que floresce LENTAMENTE. E, sim, você está sozinho nessa grande zona de conforto que seu corpo encontrou no caminho da Oceania.
Por fim, os pés tocam o chão bruscamente. O corpo se encolhe. Você pega a roupa separada no dia anterior, tira o pijama — uma calça manchada, às vezes usada para um trabalho que nunca esteve nos planos, mas que paga as contas — e, mais uma vez, LENTAMENTE, vai colocando primeiro os pés e depois o corpo sob a água pré-aquecida do chuveiro, que desperta por inteiro para o novo dia.
Os sonhos antes idealizados — e às vezes alcançados — junto às experiências que se acumulam ao longo do caminho, desvanecem a cada dia nesse longo processo chamado vida.
Todos os dias enfrenta batalhas; todos os dias acorda inerte, incerto… incerta sobre o que vem a seguir. E assim, ao se entregar a um estado inconsciente da própria existência, segue len.ta.men.te pela rotina e pela vivência dos dias terrenos. O piloto automático se liga. Por onde começar…
Viver na Austrália é como acordar em manhãs frias. É preciso força para não permanecer na cama quando o sol finalmente nasce — para recusar tornar-se apenas mais um sobrevivente da vida cotidiana. Despertar diariamente para os sonhos que deram origem à imprevisível jornada da vida de imigrante é essencial.
Você olha para a geladeira: “Australia — it’s a bloody long way”, diz o ímã comprado em uma pequena loja de conveniência. Agora, você não apenas compreende — sente na pele, nos ossos, no espírito moído.
São 9 horas. Hora de ir. Às 9h15, o próximo ônibus chega; você vai chegar por volta das 10h30. Tudo está de acordo com o plano… mas e a busca pelos seus sonhos? Quais eram eles, mesmo?
Os sonhos.
Você faz um esforço mental para lembrar, mas já são 9h10. Você vai se atrasar. Eles odeiam isso.
Você segue em direção à porta… pega a chave, a bolsa, o celular, o corpo, e sai para mais um dia.
Mais um dia na Oceania. Mais um dia na terra do Nemo.


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