O Labirinto

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Não havia um no quintal de casa, e sim na escolinha. Este, todinho azul como o céu de Campos do Jordão, era paulista. O labirinto — ou “gaiola”, como o chamavam — era maravilhoso.

Eu, pequena e travessa, subia cano por cano até chegar ao topo, onde alcançava o êxtase de ver tudo lá de cima. Ele, todo de ferro frio, era único para mim. Eu dispensava o balanço, o escorregador… dispensava tudo só para ficar ali, pendurada, com os joelhos dobrados e de cabeça para baixo.

O chão de areia, amarelinho, donde o metal crescia esplêndido e poderoso, ficava aguado. Mas eu não lhe dava trela. Não caía. Havia outras crianças também; eu as via, elas me viam, ríamos e víamos o céu azul. E o céu… ele também nos via, juntos, de ponta-cabeça.

Depois, cresceram-me as pernas e, quando o reencontrei, cheio de crianças, numa festa de casamento, tentei subir, mas não consegui. Tentei sentar, mas as pernas não deixavam. Não balancei, não vi as estrelas que surgiam no céu — só elas me viam. Eu, não: olhava para o chão, enquanto, lá de cima, as crianças na gaiola e as estrelas no céu viam uma nuca que não se mexia no playground.

(inspirado na crônica “O Cajueiro”, de Rubem Braga) – Suzano, 22/09/2009

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Entre o real e o imaginário, me reconheço em Albert Camus: “Nunca me senti tão profunda e, ao mesmo tempo, tão alheia a mim — e tão presente no mundo”.

Vanessa (Veedeli)