O Clube de Navi

2–3 minutos

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Sol e chuva. Os gritos não param, sempre depois das 16h, perto das 18h. As gírias, as conversas, falas confusas, pausadas e cheias de gritos indistintos que se misturam. A bola no portão. O goleiro de camisa azul. O amigo, segundo no comando do clube, que a mãe chama para dentro de casa para cuidar das irmãs. A bicicleta jogada em frente ao portão vermelho, quebrado pelo “alemão” e restaurado pela tia.

O paredão e as traves feitos do muro do comércio há muito tempo fechado e dos restos das duas colunas de uma antiga cobertura da casa AB46. A menina da camisa 10. O camisa preta com listras laranja. O camisa vermelha número 2 olha desconfiado — sabe que a bronca vem se a bola acertar de novo o portão da tia. Risadas. E a antiga quaresmeira — ponto de encontro e de subida. A chuva cai. O camisa 94 do Corinthians passa com a gola da blusa entre as mãos, secando o rosto, que se molha novamente.

— E é todos contra um? — pergunta o goleiro aos gritos, enquanto a chuva e o trovão continuam caindo.
A bola amarela e Navi continuam juntos, pulando, correndo, sendo chamados pela turma.

— Navi! Lá ele!
— Sua cara tá brilhando! Tá com frio?
— Navi!

De tudo se ouve, menos o tão esperado grito de gol. Enquanto isso, Navi canta:
— Lalala, lala la, lala la…

— Parecia Europa! — alguém fala.
— Nóis é Brasil! — outro grita.
— Não, nóis é Portugal! — outro responde.
— Ele é quem?
— Nóis é Inglaterra! Você? Você é quem, Du…
— Navi! Navi! Ele pode ser aquele carinha lá!
— Não… nada a ver! — alguém interrompe.

A chuva continua caindo. Os meninos e a menina correm: 1, 2, 3, 4, 5, 6… (quantos? Não sei). Mas a única coisa que não se ouve é o tão esperado grito de gol. A chuva de verão, agora mais fraca, com trovões cada vez mais distantes, continua caindo, esperando o gol da turma do Navi.

— 4×2! — alguém grita.
— Aquele não valeu!
— Valeu, sim!

Mas nada do tal gol… e até a chuva parou. Já estavam em 3×4. Uma pausa. E, como se estivessem engasgando, um grito sai fraco… depois mais reconhecível:

— Go… go… goooooool!

4×4.

E novamente eu ouço:

— Gooooooool!

Agora mais longo. Mais celebrado. Mais a cara de Navi.

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Entre o real e o imaginário, me reconheço em Albert Camus: “Nunca me senti tão profunda e, ao mesmo tempo, tão alheia a mim — e tão presente no mundo”.

Vanessa (Veedeli)