Linhas de pedras preciosas

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Na preciosa pedra azul, vê-se a vida passar entre casas, bairros e estações. Deixa-se, diariamente, uma parte dela e segue em direção ao seu destino — às vezes vazio, às vezes cheio, porém sempre mais velho — rumo ao tão famoso centro de São Paulo.

Os rostos cansados carregam o peso da vida do trabalhador — marcas que vão ficando cada vez mais visíveis com o passar do tempo. Para este singelo autor, quem nunca trabalhou, nunca plenamente viveu. Pois a vida consiste em trabalhar para si e para o próximo, multiplicar e morrer; ser capaz de lidar com pessoas, espaços e tempos similares e atípicos simultaneamente, porém inigualáveis.

Tudo começa às 5 a.m., na plataforma da linha 12, na penúltima estação, onde estava seu lar tão conhecido, rejeitado e distante de tudo. Distante da cidade, do mundo, do que é considerado moderno e civilizado. E daí que puxava o “r” ao falar “porta”… Porta é porta. (Não conseguia ver a diferença da qual riam e pontuavam.)

O balanço do trem embalava sonhos proibidos; cartas de baralho e peças de dominó dançavam em mãos desconhecidas. Alguns olhares se perdiam no espaço de metal, outros se encontravam — pois, naquela época, celular não era extensão de um corpo —, mas as pálpebras teimosas denunciavam o cansaço. Desconhecidos se apoiavam uns nos outros como torres de cartas; corpos se esbarravam e se comprimiam, e aquele calor humano que antes os excitava agora os enojava. Ali não havia frio. Braços se apertavam contra o peito, pés lutavam por espaço e as vozes se misturavam aos risos, aos gritos, aos prantos, aos roncos…

O cheiro específico de bebida às sextas mistura-se ao odor do suor diário.

E, nesse espaço onde corpos temporários se encontram, incapazes de julgar e cansados demais para serem, tornam-se irracionais e vulneráveis.

Rostos que se perderão em cada estação. Rostos que partem no movimento em direção à próxima parada. Todos perdidos no tempo e no espaço.

Nomes que se apagam; risos que buscam atenção; olhares em busca de preencher um ego juvenil; gritos frustrados e desconhecidos; brigas, namoros… e, vai e volta, sempre a mesma máxima:

— Tá incomodado? Pega Uber, vai de carro.

(Sugestão extremamente bem-vinda, porém não acessível a todos.) Então, frustrados, seguem discutindo, retrucando e xingando a todos em seu caminho.

E, às 21h, seu corpo fica na penúltima estação, a caminho de casa, depois de mais um longo dia na linha 12 — Safira — e na linha 11 — Coral, que de preciosas têm somente o nome.

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Entre o real e o imaginário, me reconheço em Albert Camus: “Nunca me senti tão profunda e, ao mesmo tempo, tão alheia a mim — e tão presente no mundo”.

Vanessa (Veedeli)