O Caminho

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Os rins lhe doíam naquele dia. Acordou. Passou as mãos nas costas inchadas. Foi ao banheiro, olhos cerrados. Entrou embaixo da água quente. Prendeu o cabelo. Viu um outro alguém no espelho. Saiu e pegou o táxi.

O trem, atrasado por si, encostou na plataforma rasgando friamente a neblina que novamente se erguia. Havia algumas pessoas. Foi prensada até o banco e ali ficou, sem mexer os pés. Chovia…

Já na estação, em meio à chuva, um casal subiu as escadas: ele a abraçou pela cintura; ela, protegida por um pequeno guarda-chuva, tentava se resguardar da chuva que caía constante, enquanto ele se molhava apenas para abraçá-la de novo.

Parou diante da porta do elevador. O condutor, segurando-a aberta, olhou-a intrigado.

— Não vai entrar? — disse o homem.

Olhou as pessoas que aguardavam impacientes sua pausa reflexiva. Voltou-se para o corredor que seguia adiante.

— Não.

Decidiu ir pelas escadas. A pressão da angústia a sufocava imensamente. Sentiu grossas e quentes lágrimas rolarem sutilmente pela face, atravessarem os lábios secos, desejosos de outrem, e caírem sobre o corpo, o chão, os pés.

Entrou no escritório, sentou-se, leu os recados sobre a mesa, digitou ofícios à Secretaria da Fazenda, mais relatórios, mais ofícios, mais fichas…

— Você vem, Celina? — perguntou-lhe a amiga, já aprontada, com os olhos ávidos pregados no relógio.

— Depois.

Não gostava de companhias. Não naqueles dias infindáveis. As luzes do escritório se apagaram; estavam a economizar. A luz não era escassa, mas cara, sim.

Saiu como havia chegado: por último. Desta vez, não tinham do que reclamar, pensou; cumprira seu horário.

Do corredor, viu outro casal de namorados sentado no banco. Ela se debruçava suavemente sobre o peito dele, que, com braços fortes, a abraçava, enquanto uma face pálida afagava-se nos cabelos crespos. O que mesmo diziam? Ah, sim: não podia haver relacionamentos entre funcionários. Mentiras! — pensou. Somente ela, a tonta, Celina, seguia regras que de nada lhe serviam. Observou com mais atenção o casal e, quando a moça percebeu sua presença e se incomodou, Celina desviou o olhar para o triste chão cinzento. Decidiu não mais seguir aquele caminho.

Abriu a porta que dava para a rua. Do balcão de um café de São Paulo, um homem a observou quando ela passou. Ele bebeu mais uma dose e ela decidiu não olhar mais para o chão. Outra porta se abria. “Como podem, dentro da empresa?”, pensava indignada. “Onde está o respeito?” Entrou no café, sentou-se e pediu um chocolate quente, pois o dia estava frio e ela não gostava de café. Não naquele tempo em que os olhos ainda conseguiam se concentrar nas infinitas telas e planilhas sem um gole de café preto.

O lume das ruas começava a acender lentamente na cidade que não se habituara a dormir cedo. Chovia naquele dia, como nunca.

O caminho de volta era estreito e longo. A chuva cessava lentamente e as expressões dos rostos à sua passagem lhe doíam amargamente. Via olhos a espreitarem curiosos algo em si que ela não podia ver. Um espirro a tirou da introspecção e, voltando a si, procurou de onde vinha o som. Uma expressão singela, com um sorriso de lábios, por entre o vidro traseiro de uma caminhonete marrom, sorriu para Celina. Agora já não chovia, e as estrelas naquela noite surgiam e também sorriam, acompanhando-a em seu caminho. Não chovia mais.

No viaduto, homens dormiam, cada qual em seu espaço, perto das colunas que se erguiam friamente; alguns trapos faziam casas distantes do aleijado que se acomodara em um dos pilares da ponte que dava para a Radial Leste. Todas as manhãs passavam por eles: estudantes, empresários, trabalhadores, bandidos e sambistas — não era paródia, havia sim uma escola de samba ali, bem embaixo do viaduto da Mooca.

Esperava o farol vermelho abrir mas, ao contrário de José Saramago em seu ensaio, Celina estava do outro lado da história. Era pedestre, e não cegara para o que haveria de vir à frente. Viu e reparou. Ali, enrolado em um cobertor cinza-chumbo, estava no chão um homem de cabelos cacheados, faces grossas e olhos humanos que a cumprimentaram — firmes, iguais — nem parecia que estava ali, no frio do chão.

Dois meses passando pelo mesmo caminho e já não os via. Estavam fora da sociedade. Recolocando-se. Renovando-se. Indo-se aos poucos. O farol amarelo chamou sua atenção para o verde que seguia à frente. Ele a seguiu com os olhos fixos. Poderia ser seu tio — pensou. Por onde andaria?

O caminho de volta para casa se formava cheio de rastros que ela não poderia — não queria — levar consigo. Celina estremeceu com o frio que atravessava os pontos espaçados do casaco bordado; temia e tremia como nunca.

Ela, finalmente, amava o dia.

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Entre o real e o imaginário, me reconheço em Albert Camus: “Nunca me senti tão profunda e, ao mesmo tempo, tão alheia a mim — e tão presente no mundo”.

Vanessa (Veedeli)