A Virada

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Era um dia nublado, sem sol de dezembro, porém com mormaço.
As crianças brincavam na piscina; os adultos também.
Mas, em sua mente, ela só ouvia:
— Nega feia do cabelo duro!

Ela pensava:
Ora… por que estou ouvindo vozes? Pensou na Austrália com melancolia…
Por que uma pessoa tão pacífica teria despertado tanto ódio?
Porque olhei sério?
Porque não sorri?

Acima de sua cabeça, a vista se completava por prédios brancos e marrons.
Um sinal de atenção cobria toda a extensão da piscina azul, cheia de vozes.

Os prédios verde e bege. Bege e vermelho.
O som do chuveiro e os gritos das crianças.
O potinho de areia amarelo e verde é jogado no chão.
Os chinelos que se arrastam.
O chapéu do Santos.
O guarda-sol da Força Sindical, branco, com manchas rosa.

Não chorava. Não mais.
Já se acostumara com as vozes. Os gritos.
O ódio sem motivo, porém constante.
O deboche que se espalhava novamente como vírus.

O céu trovejava sem chuva.
A brisa suave.
As famílias reunidas esperando a virada.

— Que horas são? — alguém pergunta.
— Ah… acho que é três. Ou quatro horas.

Enquanto isso, ela está feliz por ser quem é:
mulher negra. Nega. Negra. Sim.
Negro soy! como dizia Victoria Cruz.
De peitos pequenos e 1,68 de altura.
Sem feições TikTok.
Apenas uma pessoa quieta, sem vida social. Weird.
E, ainda assim, capaz de despertar tanto ódio.

E, mesmo com tanto ódio no mundo, ela é feliz simplesmente por observar…
por poder escrever…
por estar viva.

A toalha verde.
As crianças correndo.
Um pulo na água.
O nenê de azul sai desnorteado da piscina rasa.
O outro, de azul e shorts amarelos, pula n’água.

E ela continua amando a vida, pois não precisa ser bela para simplesmente estar viva.
Estar presente.
Estar em paz.

Agradece a Deus pelo dia.
Pede proteção.
E que seu coração seja guardado de tudo e de todos.

Mais um grito:
— Nega feia!

Se sou feia, por que se importam?
Se incomodam? Então me deixem, vozes do além!
Não quero sua atenção.
Calem-se! Calem-se! Pois o karma a ti vem…

Já se olharam no espelho hoje?
Já conversaram com seus demônios?
Já resolveram o que dói aí dentro?

Porque soam frustrados?

E quais serão suas resoluções?
Continuarem tóxicos até sufocarem os seus?

Mais uma linha escrita e um olhar distante na direção do som sem rosto.
Enquanto isso, o professor, na videoaula, fala sobre a separação do Catolicismo.

Então, um sorriso familiar surge no meio dos insultos.
E, com voz suave, chama com carinho e ternura de berço:

— Vanessa!

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Entre o real e o imaginário, me reconheço em Albert Camus: “Nunca me senti tão profunda e, ao mesmo tempo, tão alheia a mim — e tão presente no mundo”.

Vanessa (Veedeli)