Keite

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Desculpe o leitor, mas não havia outro nome. Não poderia eu apagar da história meu primeiro amor infantil. Um nome pode ter vários significados — ou nada indicar. Mas o que tem isso de importância? Somente conhece quem o guarda consigo.

Tinha eu quatro anos quando a vi pela primeira vez. Parada em frente ao portão de madeira da casa de minha avó, na Rua Cordilheira do Araripe, debaixo de uma grande árvore que já não existe. Estava eu ali, com meu pequeno corpo infantil, quando um braço se estendeu sobre minha cabeça, sobre o muro; destravou o trinco e abriu o portão de madeira que dava acesso ao quintal de terra e pedregulho. TEC! Fez a trava e trouxe consigo uma enxurrada de cachorrinhos amarelinhos.

— Quero essa aqui, mamãe! Essa aqui, olha…

Nos fundos da casa de minha avó havia também um poço e, logo mais à frente, um pé de jaca. Ali, logo ali embaixo, ficava Lupa. Morreu como filha. Velha e cheia de anos.

— Eu quero uma, vó! — dizia eu, em meu excitamento infantil.

— Fala com seu tio Carlinhos. A cachorra é dele.

Minha avó era uma mulher religiosa que, ao chegar ao portão, sempre se fazia ouvir: risada e voz. Viveu por trinta e quatro anos em cima de uma cama por causa de um erro médico, contava minha mãe. Nunca perdeu o brilho. Guardava o dinheiro que tirava para a coleta da igreja — às vezes para a neta ou para pequenas despesas — dentro da meia. Desenrolava-a com cuidado, tirava algumas notas, tornava a enrolar a meia e a colocava novamente no canto esquerdo da cama ou embaixo do travesseiro. Cheirava a talco Polvilho Granado. Vaidosa… sempre alisava o rosto, ajeitava o nariz, as orelhas e se preparava para o culto. Após sua partida, um dia percebi que minha mãe tinha um cheiro que me lembrava minha avó. Foi então que vi o talco Polvilho no banheiro. Nunca faltava.

Morreu depois dos filhos homens. Vi-a chorar por Carlinhos, o caçula — esfaqueado pelo amigo.

Tinha cachos lindos no cabelo e sempre usava calça jeans magra azul, com jaqueta de couro preta. Era artesão. Tio Wilson. Morreu inchado, coitado. Tão amoroso. Mas a bebida o levou, junto com os olhos tristes e o jeito carinhoso e pacato de ser.

E minha avó chorava sem consolo, pedindo:

_Deus me levá. Não aguento mais este cálice amargo. Falava.

Chorou também, antes de partir, minha avó, da cama de um hospital. Não podia mais falar, mas, consciente da partida, as lágrimas lhe caíam. Minha alegre vó Nica.

Lupa também teve netos. A cachorrinha levada numa caixinha de sapato havia dado filhotes: duas netinhas — uma preta, de patas amarelas, e outra marronzinha — filhas de Keite e Costelinha.

A primeira partiu deste mundo antes dos dois anos; a segunda sumiu, perdida no mundo.

Pensando bem hoje, acredito que meus pais a doaram. O que me entristeceu grandemente na época. Ela era filha de Keite, minha amiga. E, curto como um sopro, se foi uma geração de vira-latas caramelo.

Keite era esperta. Vomitou na caixinha por causa do balanço do trem. Ciumenta. Briguenta. Medrosa. E aventureira como eu. Subíamos na laje sempre depois da aula e dormíamos no telhado nas tardes ensolaradas. Gostava de tudo: correr atrás de gatos no telhado durante a noite; rolar na carniça; me ouvir falar, correr… Comia de tudo tambem: bagaço de laranja, banana, coco, etc.

De pavio curto, puxava briga com Paty — uma dobermann marrom, de rabo cortado (tinha vindo assim). Era dócil, tadinha. Sempre apanhava e era salva por um balde de água, gritos e mãos que as separavam. Às vezes pegava Keite de jeito também. E eu me desesperava ao ver minha amiga revirar os olhos brancos. Separávamos como podíamos, e Keite, não conformada, mordia a casa de raiva.

Minha confidente, minha companheira fiel — sempre me entendia.

Dei-lhe o nome; mas os anos, estes não pude lhe tirar, enquanto se iam como o vento. Envelhecia minha amiga. E de si ficou apenas o nome — e uma foto.

Partiu quando eu tinha dezenove anos. Sempre me pareceu estranho quando, vez ou outra, encontrava uma Keite no trabalho, na rua, na Austrália, na vida. Como podia eu, criança, imaginar que outras pessoas teriam o nome que, em minha pequena mente, eu havia criado? Kente… Keite… pois era amarelinha.

Morava ali pertinho minha amiga de infância… bem debaixo da minha janela.

Suzano, 11 de janeiro de 2009

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Entre o real e o imaginário, me reconheço em Albert Camus: “Nunca me senti tão profunda e, ao mesmo tempo, tão alheia a mim — e tão presente no mundo”.

Vanessa (Veedeli)