
Ela ouvia Napoleon Hill naquela manhã. A cabeça ainda confusa, ainda duelando com a virada do ano. Como era possível atravessar de 2025 para 2026 e, em vez de votos de felicidade, ouvir apenas risadas, insultos, comentários lançados em voz alta? Alguns questionavam até sua relação com o homem ao seu lado.
O pai.
Sentia falta do Brasil. Muita. Depois de seis anos fora. Tinha partido por medo do extremismo. Do racismo que previa crescer. E não. Não estava errada.
Reconstruiu a própria vida muitas vezes. Por isso se surpreendeu ao voltar e se ver entediada no quarto de antes. Mesmo espaço, mesma casa, outro corpo.
Rolando as redes sociais, encontrou um curso público de Paisagismo. Por que não? Um teste para a mente, pensou.
Passou em 13º lugar. Nada mal para quem não estudou. Matriculou-se mesmo achando três anos um exagero. Começou em agosto do mesmo ano. A escola era longe. Trabalhava à noite para dois clientes e se mantinha acordada à base de café para as aulas vespertinas. Pela manhã, dormia.
Ajudava quem podia. Sempre que podia.
O ex-namorado era um homem amoroso, voltado ao serviço. Ela o amava, então ajudava e ao ajudar seus colegas de classe. Se lembrava dele.
Alguns colegas gostaram dela. Outros não. Os que não gostaram começaram a zombar das roupas, das calças. Então, para evitar conflitos, passou a usar sempre as mesmas peças de roupa religiosamente. Apagar-se parecia mais seguro.
Certo dia, desceu para tomar café. Precisava ficar acordada.
Ela não era mais uma menina. Era uma mulher. Depois de anos trabalhando em escola, aprendera a evitar passar perto de alunos.
Saiu do prédio e lá estava. Um grupo de adolescentes. O corpo travou. O rosto endureceu. Que não a vissem, que não a vissem…
Talvez estivessem distraídos…
Eles a viram. Ele a viu. Um garoto branco. Um rosto que não lembraria. O rapaz pareceu ofendido e, com desdém, comentou sobre o cabelo dela. Riram-se.
Aquilo era puro racismo, pensou. Aquilo pertencia a eles.
E voltou o olhar para a comida que havia pego. Voltou para a aula satisfeita e acordada.
Outro dia, sentada ao sol, lia Crazy Love, livro recomendado anos antes pelo ex-namorado. Ouviu meninas comentando sobre sua maquiagem… por que usava… etc. Outra disse, irritada: “Por que não fecha o bico?”
Racismo, pensou. E continuou lendo. O céu estava bonito demais para interromper.
No caminho de volta, a ofensa veio inteira. Um rapaz e três meninas caminhavam em sua direção, e ela ia de encontro ao grupo, pois era o caminho da sala de aula. Ia séria, com as feições fechadas, pensando no atraso e na ofensa que havia ouvido no pátio.
— Ela é a menina mais feia da escola — falou o rapaz ao passar por ela.
— Você fala isso de todo mundo — alguém respondeu.
— Não. Dela. Ela é a mais feia.
Pensou que talvez ele tivesse se ofendido com o rosto sem sorriso. Não sorria para desconhecidos. Não mais. E, com pensamentos difusos, seguiu seu caminho. Estava atrasada para a aula de Solos I.
A partir dali, algo começou. Uma perseguição generalizada. Na escola, no ônibus, no trem. Sempre alguém pelas costas, seguro e covarde o bastante para não assumir o ataque. Não tinham rostos. Somente vozes desconhecidas. Vozes de homens.
Repetiam-se… como se quisessem reprogramar seu cérebro. Ao modelo antigo.
Saiu do curso quando teve a impressão de que a escola inteira comentava sobre ela. No fundo, não pretendia ficar até o fim. Então saiu sem longas despedidas ou justificativas.
O medo passou a acompanhá-la. Pessoas gritavam opiniões sobre sua aparência em público. Olhavam-na com ódio de fonte desconhecida. Viajou… foi hostilizada. Pegou o trem… o ônibus… o caminho do sol… das flores… Sentiu pavor. O que sua casa havia se tornado? O Brasil que conhecia já não existia.
Passou dias em casa. Pegava Uber. Estava “bem” — até o Ano Novo.
De repente, viu-se conhecida. Observada. Comentada. Como se fosse uma personalidade pública com um clube de haters. De onde a conheciam?, pensou. Para alguém tão reservada e introspectiva, o assédio era insuportável e invasivo. O que queriam?
A família não acreditava. O lugar drenava. As pessoas. A casa. O novo clube de haters. O fato de ser conhecida. Tudo a estressava.
Olhava, observava e se perguntava por que afro-brasileiros — por que seus pais — sorriam de forma servil. Tentavam agradar quem não pretendia aceitá-los; ao contrário, ignorava-os.
Mas ela, que prezava pela invisibilidade e pela tão amada liberdade individual adquirida no exterior, era agora forçosamente vista e impiedosamente julgada por desconhecidos. Na pousada, na igreja, na rua, no restaurante, no estacionamento, no carro, no quarto, no pátio.
A zombaria veio, mas não a necessidade de aprovação.
Em uma saída, o pai a segurou quando tentou reagir. Depois, ouviu murmúrios enquanto ele jogava sinuca. Uma mulher gravou seu rosto. Uma foto. Um desafio silencioso. Um grito na piscina. Vozes na cozinha. E se multiplicavam aos rios.
Dizem que as pessoas atacam o que as ameaça. Que o ódio nasce do espelho. Do que não é aceito. Não era aceita?
Talvez tivesse espelhado alguém. Sim. Espelhou e delimitou.
Em um almoço de família, as vozes não cessavam. Comentários sobre sua aparência, reforçados a cada copo de cerveja.
Antes de ir embora, parou no portão. Agradeceu o ano. Pediu justiça. Pediu proteção.
Passou por uma pessoa considerada “padrão” e pensou como sua vida seria mais fácil. A frustração quis inundá-la. Pediu a Deus que guardasse seu coração. Pois há muito havia saído de lá. Do campo de onde as vozes pareciam sair. Frustradas. Cada uma delas. Frustrados.
A sobrinha sentou-se em seu colo.
Alguém gritou, rindo:
“A negra feia está indo embora.”
Ela não olhou para a voz. Pois o que não tem rosto, para si, não existe. Olhou, sim, para sua família à espera de alguma reação… Será que ouviram as vozes? Não.
Nada.
A irmã voltou ao celular. A mãe seguiu no que fazia. Os outros apenas olharam.
Ali, ela entendeu. Ninguém viria salvá-la. Estava só. Ela e as vozes.
Apoiou a cabeça, entregou a criança para a avó e colocou os abafadores de ouvido. Estava cansada. Não havia dormido.
E, com um gesto maquinal, escolheu o silêncio.
A paz que tanto prezava ainda existia — mas agora era usada para autopreservação.
Um carro, uma farmácia, dormiu.
No TikTok, via uma mulher negra chorar e dizer que se odiava, que se achava horrível. E pensou consigo mesma… o que havia acontecido nesses últimos seis anos em que esteve fora do país? O que estavam ensinando? Qual era o novo preço da aprovação pago? O que seria das mulheres negras que se amavam assim… NEGRAS…
Talvez se viajasse, pensou…
Talvez… noutro país… noutra língua…
Talvez encontrasse novamente o silêncio.
Ela. NEGRA. Só paz queria.
E o Brasil — a casa que tanto almejava rever — lhe ofereceu, sim, um espetáculo regado a racismo seletivo. E ódio persecutivo. Já não o reconhecia. Não mais. Sua casa já não tinha palmeiras e sabiás. Apenas gritos — frustrados e diários.
A mesma menina que deixou seu país em busca do desconhecido não mais existia. Agora, MULHER era.
Precisava se justificar. Não mais.
Precisava se anular. Não mais.
Era DONA DE SI.


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