
Os dias têm sido difíceis.
Abro os olhos e penso, penso, penso.
Não tenho forças, mas continuo caminhando, pois Napoleon Hill disse que a ação e a disciplina espantam o medo e ajudam a seguir.
Me sinto vazia.
Com receio de ser ofendida e diminuída a cada esquina.
Essa difamação tem custado minha paz. Minha casa.
Os estudos nem tanto, mas sou grata, pois Deus é maior.
Pelo meu adversário, eu moraria na rua. Mendiga! (Gritaram-me um dia.)
Pelo simples fato de eu ser eu.
De eu ser feliz sendo assim… NEGRA.
O Brasil tem se tornado um lugar triste.
Não me lembro de ser assim antes.
Minha mente se cansa e se desgasta ao tentar fazer com que minha família acredite em mim.
Um grupo realmente se organizou para me atacar.
Me seguem, usam crianças para me xingar.
São covardes, frustrados — e nem ódio em mim carrego, como eles carregam em si mesmos.
Pois o ódio destrói e corrompe a alma.
Oro, e a multidão de perseguidores só aumenta.
Penso em me matar.
Mas lembro que isso os faria felizes — e desisto.
Ninguém acredita em mim.
Dizem que é da minha cabeça.
Mas minha cabeça não tem ódio ou desprezo pela pessoa que sou.
Os vizinhos, as irmãs da congregação — todos sabem.
E riem.
Expulsaram-me de casa na passeata contra minha feiura, e minha mãe e minha irmã nada veem, nada dizem.
Tão absortas em si mesmas, pois cada um carrega em si seus próprios problemas e frustrações.
Vou ao CAPS.
Sou acolhida. Choro e choro.
E digo: por quê?
Por que tanto ódio?
— Esquizofrenia — ela diz.
A moça de óculos, sorriso acolhedor e cabelos tingidos de loiro.
Me irrito.
Não estou doente. É real.
Meu pai, sentado ao lado, nada vê. Nada ouve.
E me desgasto novamente.
— Te encaminharei para a psicóloga. Eles cuidarão de ti.
Volto alguns dias depois.
Falo com o psiquiatra.
Ele me olha e diz:
— Há duas hipóteses: delírio ou um grupo sistematizado a te perseguir.
— É real — afirmo.
E novamente o olhar descrente.
— Lhe darei este medicamento para delírio. Continua.
Ele se volta ao meu pai e pergunta:
— Ela tem falado sozinha? Xingado o nada? Vê coisas que ninguém vê?
Gelo.
Dois dias antes, gritava eu com espíritos que havia visto no pequeno quarto que habitávamos agora, meu pai e eu.
— Não, doutor. Nunca vi — responde meu pai.
Respiro aliviada. Ele havia trabalhado no dia.
— Você viu o Vinicius Junior, o jogador? — pergunta o médico.
— Ele sofre xingos e racismo e depois vai para a festa. Ele continua vivendo normal.
— Sim. É o que quero, doutor. Poder continuar. Uma vida normal.
Voltar a ir ao mercado, à farmácia, sem medo de ser reconhecida, xingada.
— O medicamento lhe ajudará a ser funcional. Ainda há boas pessoas no mundo — conclui o psiquiatra.
Pego a receita.
Coloco novamente os sapatos, pois o chão frio me acalma, e direciono-me para a próxima consulta do dia.
As árvores do parque me acalmam, enquanto risos e gritos se levantam dos trabalhadores do parque.
Eles também sabem. Falam entre si. Mostram o celular. E aumentam-se os conhecedores… zombadores.
“É ela. Horrível.”
Me direciono ao trabalho.
Exausta, porém viva.
E sigo meu dia, remoendo os ecos dos gritos diários.
É mais fácil lutar contra o imaginário do que contra o real.
O real não está sob seu controle.
Me medico.
E durmo na mesa de trabalho.
Acordo. Estudo.
Termino meu dia.
Pego o Uber.
Coloco o fone de ouvido para abafar a voz do mundo, que insiste em continuar gritando suas opiniões sobre o quanto sou inadequada aos olhos humanos.
Sigo em direção à casa de meu pai.
E me desespero quando a música para e o fone cai.
Gritos. Pânico.
Fui reconhecida no Uber.
Entro em alerta. Coloco novamente o fone e o aperto freneticamente para retornar a música.
Com olhar vazio, olho em direção contrária, onde dois carros haviam colidido.
Me olham. Nada vejo. Apenas rostos sem forma que me olham novamente.
Não uso óculos. A miopia me salva de maior pânico.
Respiro.
Deito a cabeça no recosto do assento.
Canto para acalmar o corpo.
Sussurro louvores.
Chego em casa.
Os vizinhos se reúnem na sacada de frente a falar, falar e falar.
Quantos são, não sei.
Olho pelo vitrô da porta de metal.
— Ah, lá! — alguém grita.
— A nega feia!
Fecho a cortina.
Apago as luzes.
Me medico.
E me deito para dormir.
E assim continuam meus dias.
Agora esquizofrênicos da realidade.
Sucumbidos em Valerimed, Dorilax, olanzapina, risos, gritos, ecos.
Ouço barulho de chave.
A porta se abre. A luz acende.
— A paz de Deus, filha — meu pai fala.
E assim, me levanto a tomar fôlego do mar que me afoga diariamente. Respiro.
E continuo… acordada ainda. Para a vida que segue sem controle externo —
esquizofrênica a poucos,
meme a muitos,
diplomática e dura para mim.
Meia olanzapina.
Ação.
E um sorriso familiar. É somente o que preciso.
E assim… meio acordada, meio dormindo… continuo… viva… esquizofrênica para a realidade.


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