
O relógio marcava 22 horas, fartas de pura desilusão, e nada, absolutamente nada, era mais aterrador que o silêncio.
Esperava que ele abrisse a porta. Cabelos emaranhados, olhos inchados e a boca seca pelo amargo da espera.
Alguém se aproxima; alguém mais se aproxima.
Passos anunciam o inevitável; o desfecho, diante da situação constrangedora em que se encontra. Já não lhe importava o que ele pensaria ao ver seus olhos vermelhos; a verdade já era conhecida e vinha-lhe ao encontro, compassada pelo relógio que marcava 22h30… 31… 32…
Queria apenas que abrisse a maldita porta!
Os passos se aproximam, ouve um grito, seu coração dispara, chaves caem ao chão, um piano, uma sonata, risos, vozes, o coração que não se aquieta no peito doído… o piano toca, risos, sonatas, chaves, maçanetas, portas, luzes, silêncio…
Dois vultos trêmulos estacam à porta. Seus dedos comprimem a lâmina com fúria. Não há lágrimas, não há alma, não há dor — esvaíram-se pelo ralo fétido da traição revelada.
O relógio marca 22 horas e 50 minutos com seu Tic-Tac… Tic-Tac… Tic-Tac…
Ao peito amargurado leva as mãos, os dois elementos se aproximam receosos.
Arregala os vermelhos olhos, olha para os lados, para cima, para ele; ela, o não remorso, a luz, o corredor e, finalmente, para o relógio que, indiferente a tudo, marca compassado…
23 HORAS.


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