
Hoje desperto, acordo e observo.
Que lindo céu vejo: cinza e espesso,
A regar minha alma brasileira…
Sento, olho, observo…
Um beija-flor na dor. Um relento.
E assim, sem máscaras, para casa voltei,
Cheia de esperanças, com sonhos nas malas, cheguei.
Trazendo cultura, dinheiro e aprendizados, assim me quedei,
Mas, pra trás a máscara deixei.
O sorriso do outro lado da mesa ficou.
Na Oceania se ficou,
Na Oceania se deixou
Meu sorriso brasileiro,
Meu instinto inferior.
Voltei feliz e sem cor,
Pois agora, em casa, me quedara,
Olhos desconhecidos me olharam, olhos desconhecidos me seguiram,
Com desdém em seus olhares, sorrindo me viram
E se perguntaram:
Por que sorris com este cabelo?
Por que sorris com esta cara?
Por que sorris com este beiço?
Por que sorris com estas calças?
Porém, nada eu sentia. Nada eu ouvira.
Na Oceania me quedara,
Lá deixara meu amor, meu sorriso e minha cor.
Gritaram-me: negra.
E negra como Vitória me senti,
Mas de minha cara tostada não me envergonhei.
Gritaram-me: negra.
E como negra retrocedi,
Mas, como em casa estava, da máscara me esqueci.
Negra me diziam: não podes ficar aqui.
Negra, me seguiam: não podes dirigir,
Não podes estudar, não podes mais sorrir.
Negra me diziam, e quieta me quedava,
Buscando luz na escuridão de minha cor,
Na solidão do sorriso de minha dor.
Cercada, seguida, acuada…
Pensando que tudo diminuiria ao me diminuir.
Assim, calada, me ficava.
Noite e dia, dia e noite gritavam:
Negra és, por que sorris?
Que cabeça a minha! Pensei. A tal da bendita da máscara havia-me esquecido.
Negra. Negra. Gritaram-me.
E negra como a noite me senti.
Retrocedi, mas progredi,
Pois da bendita máscara me esqueci.
E riam-se, e ria-me,
Como louca, ria-me.
Viva, ávida, triste, ria-me,
E riam-se, e ria-me,
Feliz, ria-me.
Em silêncio, ria-me — como nunca — ria-me
E assim, em reticências, sobrevivia.


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